segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Navegando no ARAGUARI - Murta

VIAGEM À FOZ DO RIO ARAGUARI

 O PROBLEMA : O rio Araguari nasce a Norte do Estado do Amapá, dirige-se para Sul, e perto de Porto Grande inflecte para Nascente, indo desaguar no Atlântico, um pouco acima do Canal Norte do rio Amazonas.

A Pororoca, nome que se dá a uma ou mais ondas gigantes que ocorrem, se não estou em erro, por altura dos equinócios da Primavera e do Outono, e que levam tudo à frente, terra, árvores, etc., segundo dizem é mais violenta na foz deste rio do que na do Amazonas.

 Antes da construção da barragem, a barra permitia o trânsito de barcos dum certo calado, que subiam o rio numa extensão bastante razoável. Após a construção, a diminuição da força da corrente, em certas épocas do ano, originou o seu assoreamento, tornando-a quase impraticável.

A VISITA AO LOCAL: A certa altura, o, Governador do Estado do Amapá, Comandante Barcelos pediu à ICOMI para estudar uma solução para aquele importante problema

Fui então chamado ao gabinete do Gerente, (Márcio Kruger, se não estou em êrro), que me informou das intenções do Governador, e me disse para ir falar com ele a fim de combinar o que fazer.

Lá fui. A sua idéia era abrir com explosivos um canal na areia da foz do rio.

Expliquei-lhe que esse processo não resultaria e aconselhei-o a contractar uma companhia de dragagens. Mas ele insistiu na sua idéia e mandou organizar uma visita ao local.

Passados uns dias, lá fui eu numa "baita" duma canoa, tendo como acompanhante um engenheiro civil do Govêrno.Connosco ia também um engenheiro florestal, que aproveitou a viagem para inspeccionar alguns postos do seu Serviço, situados ao longo do rio.

Além de outros artigos, seguiam connosco um tambor de 200 e outro de 100 litros de gasolina

Enquanto não entregaram todo o combustível naqueles postos, confesso que não ia lá muito à vontade, com o timoneiro constantemente acendendo cigarros.

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Eu ia vestido com a roupa impermeável, sueste e botas da ICOMI.

Quando embarquei, os meus companheiros de viagem, à boa maneira brasileira, começaram logo a brincar comigo por causa do meu equipamento e por ter desatado as botas.

Expliquei-lhes que ia preparado para a chuva, e desatara as botas por causa da eventualidade de dum naufrágio (eu prestara Serviço Militar na Marinha).

Os meus companheiros iam de bermudas, T-shirts e sandálias.

Pouco depois do início da viagem, que durou quatro horas, não contando com as paragens, já chovia que Deus a dava.

Aí ao fim de uma hora, parámos no primeiro posto dos Serviços Florestais. Eu cheguei completamente enxuto e os meus companheiros, molhados até aos ossos. Perguntei-lhes então o que pensavam do meu equipamento. A resposta foi, mais ou menos: "afinal, o portuga é que teve juízo". Mas a pior é que nem naquele posto, nem em nenhum outro, havia fogo para secar as roupas dos infelizes. Nem para aquecer um café

Lá seguimos viagem, com os coitados dos meus companheiros naquele estado,… e a chuva continuando a cair aos  potes…Mas não ficaram, por isso, mais molhados…

A gasolina e o engenheiro florestal ficaram pelo caminho, tendo eu, o timoneiro e o meu acompanhante prosseguindo viagem.

Este companheiro não tinha pressa nenhuma em chegar ao destino e, numa das paragens ficou conversando tempos e tempos com o dono de uma casa comercial, construída sobre estacas, como todas as casas da região, tomando umas cachacinhas e trocando impressões sobre os búfalos e pessoas conhecidas daquela parte do Amapá, que nessa altura do ano estava alagada até perder de vista. Um mar autêntico.

Bem. Por fim lá atracámos, já de noite, nas escadas de uma casa dum conhecido daquele companheiro e que ficava ainda a uma hora de canoa, da foz do rio. Ficou então decidido passarmos aí a noite.

Nessa casa viviam o dono, a mulher, um filho, a nora e um ou dois empregados.Dedicavam-se à criação de búfalos Era gente muito rica, mas que vivia em condições um tanto precárias. Gente boa e muito hospitaleira.

O banheiro ficava situado aí a uns vinte metros da habitação, sendo o acesso feito por uma passadeira montada sobre estacas. Lá havia uma tábua com dois buracos donde se via a água, lá em baixo. Aí, a toda a volta da casota, havia uma paliçada, que, penso eu, tinha a dupla função de dificultar a disseminação dos dejectos e impedir que alguma canoa se arriscasse a  passar por baixo…

Quando chegou a hora de dormir, como não tinha sido avisado para levar rede. tive que dormir sentado num sofá, com os pés em cima de um banco

Antes de me "deitar"perguntei onde havia. água para lavar os dentes. Bastava descer uns degraus e tirar água daquele mar barrento. Lembrando-me do banheiro, e para não ofender os hospedeiros, desci, mas preferi não usar daquela água.

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No outro dia de manhã, lá seguimos para a foz do rio, tendo eu demonstrado ao meu companheiro que o uso de explosivos era um absurdo, e, aconselhado, como tinha dito ao Governador,a que contractassem uma empresa de dragagens para resolver o assunto, e que, se possível, controlassem as descargas da barragem.

Como estava no tempo da pororoca, aguardámos por ela perto da foz, na casa dum conhecido do meu companheiro (aliás até parece que ele conhecia toda a gente).

Infelizmente a última ocorrência dêste fenómeno, tinha sido no dia anterior. Paciência.

A casa ficava situada num imenso areal, rodeado, ao longe, pela floresta

Havia várias árvores secas, à volta duma das quais o dono da casa tinha construído uma cêrca de bambu que servia de capoeira.

O que me surpreendeu foi a existência de grande número de ninhos de barro, parecidos com melões com buraco em baixo, pendurados nessa árvore, enquanto as outras não tinham nem um único.

O dono da casa explicou-me que os pássaros sabiam muito bem que ali estavam mais seguros, pois, se alguma ave de rapina se aproximasse, êle, para defender os seus animais, "mandava chumbo". E digam lá que os pássaros não são inteligentes…

O REGRESSO: Após o almoço em casa dos nossos hospedeiros, iniciámos a viagem de regresso, que, sem paragens, duraria cêrca de cinco horas, ou seja, chegaríamos já de noite

O meu acompanhante, como anteriormente, parou na tal casa comercial, bateu um longo papo com o proprietário, não demonstrando, bem como o timoneiro, nenhuma pressa em regressar, embora eu fosse lembrando que já era tarde e a viagem longa.

Por fim, já ao sol-posto, lá partimos debaixo duma chuva intensa que continuou durante toda a viagem.

Aqui tenho que demonstrar a minha admiração pela perícia (ou inconsciência) do timoneiro, pois não se via um palmo à frente dos olhos, mas êle conduzia a canoa no máximo da velocidade (ou era impressão minha?...)

O que nos valeu foram os relâmpagos, que de quando em quando rasgavam o céu, iluminando o nosso caminho.

Só apanhei dois sustos:

O primeiro foi quando o timoneiro desviou bruscamente a embarcação para estibordo, no meio uma confusão de vegetação aquática, e de ramos de árvores a roçaram pelas nossas cabeças. Isto foi devido a encandeamento provocado por um facho de luz vindo da margem esquerda.

O segundo foi ao contrário, uma guinada brusca para bombordo, motivada por nos termos cruzado com um barco branco, que navegava em rumo oposto, sem luzes de navegação Aliás, a nossa canoa também as não tinha (Deus é brasileiro…).

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Em ambos os casos eu ia saindo pela borda fora, mas não quis o Destino que tal acontecesse.

Quando chegámos ao fim da viagem, dei os meus parabéns ao timoneiro, mas jurei cá para comigo, que não viajaria mais naquelas condições, não por medo, bem entendido, mas pelo prosaico instinto de conservação.

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