quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

MOTORISTA DE CAMINHÃO – WALKER (PAPINHA)

Logo que cheguei em Serra de Navio (1.979) fui trabalhar na usina. Nesta época o rubinho era o chefe do departamento, o Pedro Soriano era o responsável pelo processo (meu chefe) e o Roca era o chefe da manutenção.

Certo dia, dirigi-me ao escritório da manutenção para solicitar um determinado serviço na usina. Conversei inicialmente com o Sabá Façanha, que era o encarregado da manutenção. Ele achou melhor nos conversarmos com o Roca para aprovação do serviço.

Entrando na sala do Roca, ele estava conversando com um representante técnico, contando que antes de trabalhar na Icomi, ainda na época de estudante, também fazia alguns bicos dirigindo caminhão no Paraná.

O Sabá me puxou para fora da sala e muito puto falou: porra, fui eu quem ensinei o Roca a dirigir quando ele chegou aqui na Icomi. Até hoje não sei se foi o Sabá que contou a verdade ou se foi o Roca que mentiu para o fornecedor.

ALÔ AMAPARÁ – WALKER (PAPINHA)

Na minha época de usina tínhamos dois técnicos bastante experientes, que trabalhavam revezando nos turno diurno e noturno: Noêmio e Domingos.

O Domingos tinha um tique nervoso e a todo instante fazia movimentos com os lábios. Com isto, acabou recebendo o apelido de amapará. Amapará é uma variedade de peixe amazônico que também faz movimentos repetitivos com a boca.

O Domingos não gostava de forma nenhuma do apelido. Se alguém chamasse era briga na certa.

Certa vez alguém da usina (não sei se da operação ou manutenção) pegou o telefone de alta voz e falou com uma voz abafada para não ser reconhecido: Alô Amapará, Alô Amapará. 

Não demorou cinco minutos e Domingos entrou bufando na minha sala. Queria que todas as pessoas da usina fossem até um telefone de alta voz e repetissem, um de cada vez, o que tinha sido dito, para ele tentar reconhecer a voz. 

Foi uma dificuldade enorme convencer o Domingos que isto não daria resultado e só iria piorar a situação.

CAPACETE NO BRITADOR – WALKER (PAPINHA)

Esta história quem me contou foi o rubinho. Portanto, não posso garantir a veracidade.

Na usina havia um regulamento que durante o turno noturno, o técnico ou encarregado do turno deveria ligar para o engenheiro da operação e para o chefe do departamento informando qualquer anormalidade acorrida (paradas acima de uma hora, acidentes, atrasos de trens, etc). Era uma maravilha, tinha noite que recebia umas cinco ligações.

Bom, na época que o rubinho era o chefe do departamento, uma certa noite o encarregado ligou para ele informando que havia caído um capacete dentro do britador primário. Aí, ainda meio sonolento ele perguntou se o capacete estava cheio ou vazio. Como a resposta foi vazio, o rubinho falou com o encarregado: então não tem problema. Amanhã manda pegar outro na segurança.

DOUTOR SAPINHO – WALKER (PAPINHA)

Por volta de 1.984 chegou em Serra de Navio um médico chamado Genarino. Passado alguns dias, eu e o maranhão começamos a pensar qual seria o seu apelido. Como regra, todo mundo tinha apelido na Icomi.

Um dia, estávamos no CCH esperando o pessoal para jogar futebol de salão, quando o Genarino chegou. Neste momento resolvemos colocar o apelido de girino, em associação ao seu nome.

O passo seguinte era começar a chamá-lo pelo apelido. A forma mais eficiente de fazer isto era chamar a vítima pelo apelido quando a mesma estava jogando futebol. Primeiro por que sempre havia uma quantidade razoável de pessoas assistindo os jogos, o que ajudava a difundir mais rapidamente o apelido. Segundo porque a pessoa não conseguia identificar exatamente que tinha chamado. Se bem que o maranhão era sempre um candidato em potencial.

Após o jogo, o Genarino chegou muito bravo no bar do CCH, dizendo que era falta de respeito, que ele era médico, etc.

Voltei a conversar com o maranhão para resolver o problema. Decidimos promovê-lo para doutor sapinho. Com isto, acredito, restabeleceu-se o respeito. Não recordo dele ter reclamado mais.

PITILIQUE – WALKER (PAPINHA)

Certa vez chegou na usina um novo engenheiro de processo para trabalhar comigo chamado Fernando Rizzato (vulgo pitilique ou zeca diabo). Pitilique era o nome dado a um tipo de tucano da região amazônica. Desnecessário dizer o motivo do apelido.

Expliquei ao pitilique os trabalhos que fazíamos na usina e com o passar do tempo fui passando novas tarefas para ele. Uma delas era ir toda manhã até as pilhas de estocagem de produtos da usina para checar se não havia nenhuma anormalidade. As vezes, durante a noite, os operadores de caminhão costumavam jogar material em pilha errada (acredito que era por engano).

Assim, toda manhã o pitilique pegava a caminhonete da usina e fazia a inspeção das pilhas. Um dia, ao retornar, ele entrou na minha sala, levou as mãos a cabeça e disse: puta merda, quase que um caminhão fora-de-estrada passou em cima da caminhonete. Respondi o óbvio, pedindo para ele ter mais cuidado.

Passou mais alguns dias, o pitilique entrou na sala e repetiu a mesma história.

Quando inteirou a terceira vez, aí não agüentei e falei com ele: você nunca mais vai me falar isto. O máximo que eu vou aceitar vai ser uma outra pessoa entrar aqui na sala e me dizer: o caminhão acabou de passar em cima do pitilique.

Depois disto ele ainda trabalhou mais um bom tempo na usina e ninguém nunca me deu esta notícia.

RECEITA DO EURÍPEDES – WALKER (PAPINHA)

Na época de solteiro na Icomi morava no alojamento em frente ao CCH (clube e casa de hóspedes). Eram meus colegas de alojamento o Serpinha (professor de educação física), o Kuzuki (geólogo), o Pinduca (geólogo) e o Rômulo (engenheiro de minas, mais conhecido como buchecha).

Durante os finais tínhamos dois programas básicos: ir para Macapá (“troca de óleo”) ou permanecer em Serra do Navio. A ida até Macapá implicava em duas viagens de trem com 5 horas de duração cada. Geralmente íamos só uma vez por mês. Quando ficávamos em Serra do Navio, o programa era um só: beber, beber e beber.

Iniciávamos a beber no CCH e após o fechamento do mesmo (22 horas) íamos para o quarto do Serpinha, onde continuávamos até altas horas da noite. Para entrar no quarto do Serpa tinha que pagar um ingresso: 2 garrafas de vinho Chateaux Duvalier, branco ou rose, adquiridos com o seu Manoel no bar do CCH.

Em um dado fim de semana chegou em Serra do Navio um novo funcionário chamado Eurípedes (geólogo). Apesar do Eurípedes ser casado, ele iria passar um período no alojamento, pois como era de praxe na Icomi, a família de funcionários recém-contratados vinha somente após o período de adaptação (mais ou menos dois meses).

Convidamos o Eurípedes para participar do evento no quarto do Serpinha, para entrosar melhor com as pessoas. Já bem tarde da noite, e após várias garrafas de vinho, o Serpinha pediu-me para preparar algum tira-gosto no meu alojamento. Chegando lá, vi que não tinha muita coisa na geladeira. Misturei numa panela algumas latas de sardinha, outras tantas de milho verde, acrescentei tempero e voltei para o quarto do Serpinha.

Comemos tudo com pão e continuamos a tomar o vinho, acompanhado pelo violão do Serpinha.

Algum tempo depois, estava retornado num sábado da usina e ao passar em frente a casa do Eurípedes, ele me chamou para apresentar a sua esposa Laruse. Ao entrar na casa, ele virou para a esposa e disse: este é que é o papinha (como todo mundo na Icomi também tinha apelido), pega o papel para anotar a receita da comida que ele preparou no alojamento.

Tive que explicar para ela que na realidade aquela comida era tudo o que tinha sobrado na minha geladeira. 

A MELHOR COMIDA DO MUNDO – WALKER (PAPINHA)

Certa vez programamos uma pescaria no Rio Cupixi durante o fim de semana. Fui eu, o Vicente (engenheiro de processo, mais conhecido como Caçapa) e mais dois operadores da mina, que efetivamente eram as pessoas responsáveis pela captura dos peixes.

Saímos de carro num sábado a tarde e chegamos já escurecendo na estação ferroviária do Cupixi. Deixamos o carro na estação e nos instalamos debaixo da ponte da ferrovia.

Além do material de pesca, levamos cerca de 30 bisnagas de pão para servir de isca e obviamente um isopor cheio de cerveja. Item fundamental para as pescaria da época da Icomi.

A técnica utilizada na pescaria era fazer uma massa com o miolo dos pães e com esta pescar a maior quantidade possível de peixes pequenos (piabas, aracú, etc) e na seqüência utilizá-los como isca em espinhel (linha com vários anzóis, geralmente amarrada em galhos de arbustos) para pescar peixes maiores.

A primeira fase da pescaria transcorreu sem problemas e após obtermos uma boa quantidade de peixes, os dois operadores encontraram um casquinho (barco pequeno) na margem do rio e desceram até a foz do Rio Cupixi para instalar os espinhéis.

A esta altura já estávamos com uma fome terrível e não tínhamos nada além dos pães para comer. A esperança era aguardar o retorno dos operadores e ver se os mesmos tinham trazido alguma coisa.

Após uma longa espera os operadores retornaram e um deles vasculhando no seu embornal encontrou 2 latas de quitute, obviamente da Swift. Cada um comeu uma bisnaga inteira com meia lata de quitute. Este foi seguramente a melhor refeição que fiz na minha vida.

F12 NA ESCUTA – WALKER (PAPINHA)

A Icomi possuía uma mina do outro lado do Rio Amapari chamada F12. Para atravessar o rio, o minério era britado e na seqüência era transferido até a outra margem através de um transportador de correia.

Por localizar-se em um ponto afastado, havia um rádio na estação de britagem que permitia a comunicação da mina com as outras instalações da Icomi.

Na estação de britagem trabalhava um operador e um ajudante. O sonho do ajudante era falar no rádio, mas nunca tinha chance. Sempre que o rádio chamava, lá estava o operador para atender.

Assim, quando alguém chamava “ atento F12” ou “atenção mina F12”, o operador respondia com toda pompa “ F12 na escuta, prossiga, câmbio”. E o ajudante só observando.

Um belo dia, o operador estava fora da sala tentando desentupir o chute do britador, quando o rádio chamou. O ajudante não teve dúvidas. Pegou o aparelho e respondeu com firmeza “ F12 na escuta, prossiga, cândido”.

BOZÓ VAI ÀS COMPRAS – WALKER (PAPINHA)

Bozó era um engenheiro mecânico chileno que trabalhou na manutenção da usina de Serra do Navio durante os anos de 1.979 e 1.980.

Naquela época, Manaus era a meca dos produtos importados, principalmente aparelhos de som, máquinas fotográficas e uma série de produtos supérfluos. Era comum as pessoas de Serra do Navio irem até Manaus para fazer compras, principalmente durante as férias.

Outros preferiam ir com maior regularidade, a cada 3 ou 4 meses, para fazerem compras e principalmente revenderem os produtos. O Bozó era um destes.

Em uma de suas viagem, o Bozó adquiriu uma série de produtos e ao retornar foi revistado no aeroporto. Na realidade, o Bozó chamou a atenção da receita federal por estar de bluza, o que não era comum em Manaus e em nenhum outro local da região norte.

Durante a revista foi solicitado que retirasse a bluza e aí, para surpresa geral, ele tinha mais ou menos uns 10 relógios em um dos braços. Não deu outra, foi detido. E para piorar ainda mais a situação, talvez pelo sotaque e também pela aparência, foi confundido com Carlos “O Chacal”, famoso terrorista Venezuelano.

A Icomi teve que enviar um emissário até Manaus para provar que ele não era o famoso terrorista e assim libertá-lo. Cabe ressaltar que nesta época estávamos em pleno regime militar.