segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A pimenta - Fontella

Quando a pesquisa do cromo estava já com uma base de dados bastante robusta, fui mandado juntamente com Antonio Claret, para verificar a oportunidade de aplicar as ferramentas da gesoestatística para estimar aquela nova reserva mineral.

Tivemos a oportunidade de passar por lá umas duas semanas, no acampamento do Vila Nova, "suando como tampa de marmita", como dizia este meu amigo, pois começávamos a suar às 18:00 horas - quando ficávamos vendo os sapos, em carreira, dirigirem-se cada um aos seus respectivos postes de iluminação, quando iam iniciar um lauto banquete de insetos noturnos - e parávamos de suar exatamente às 18:00 horas do dia seguinte, quando ficávamos vendo o ritual dos sapos se repetir.

Assim iam se passando os dias, coletando informações, elaborando estatística dos principais indicadores e analisando o variagrama dos mesmo, para ver se teríamos uma função robusta, que desse oportunidade a aplicar as ferramentas de estimação por krigagem.

Porém, o suor não passava de modo algum, e tentando melhorar o paladar da comida elaborada pelo Tetéo, cozinheiro chefe do acampamento, descobri um pé de pimenta malagueta (nativa?) num desmatamento próximo à area do acampamento.

Oba! Era uma oportunidade de aplicar o conceito médico "similia similibus curantur", quer seja "combater o veneno usando o veneno".

Quem sabe daria certo e mataria dois coelhos com uma só cajadada, esconder o "sabor" da comida através picância fornecida pela capsaicina, que além de possuir propriedades benéficas à saúde e causar sensação de bem estar e elevação do humor, também poderia resultar numa diminuição da "suadeira". 

Assim sendo, com esta idéia na cabeça, passei os olhos na "cozinha" logo após o café, pensando na vingança que aplicaria ao Tetéo.

A cozinha está entre aspas por ser um local onde se apresentava uma mesa de madeira (madeira bruta) com uma tosca cobertura de telhas, também de madeira, sem nenhuma proteção lateral e de piso cimentado. Quando revejo esta foto mental e associo com as boas práticas atuais da legislação ANVS 216 que fala sobre os procedimentos que devem ser adotados pelos serviços de alimentação a fim de garantir a qualidade higiênico-sanitária e a conformidade destes produtos com a legislação vigente, penso que éramos heróis".

Bem, mas o caso é que ao passar pela "cozinha" e ver o Tetéo lançando os frangos ainda congelados sobre a mesa e pegando um facão, com mais ou menos 80 centímentros de lâmina, cortar os mesmos em duas direções cruzadas, como um exímio de samurai com sua katana, e ao tê-los todos picadinhos e sem nenhum tempero (ou limpeza prévia), levar todo aquele galináceo diretamente ao fogo para cozer, minha vingança se resumiu a comer apenas arroz daquele dia em diante.

Ah! E a pimenta?

Isso mesmo, arroz com pimenta passou a ser meu prato único, até ser salvo, no último dia de trabalho, com um AÇAÍ oferecido pelos colegas que estavam na pesquisa de ouro, mas aí é outro caso.

at... Fontella

fontellajunior@globo.com

Nota do Editor (rsrsrs): (O Fontella trabalhava na MBR-MG e foi até à Icomi a serviço)

domingo, 28 de setembro de 2008

Maçaranduba - Ney

Na campanha de pesquisa do CPQ, Rio Jarí em Maio de 73, tínhamos 5 geólogos e 55 mateiros.

Na véspera da saída tínhamos um encarregado que era Pastor e nos pediu autorização para fazer um culto evangélico.

 O acampamento se dividiu. Uns ficaram jogando dominó e um grupo se dirigiu para o culto. No final da pregação foi perguntado quem queria aceitar Jesus. Tínhamos dois mateiros muito bons que tinham o hábito de mascar fumo. Um deles de apelido Maçaranduba, resolveu aceitar, o outro de nome Bacelar estava vendo o jogo de dominó.

 Eles tinham comprado uma grande quantidade de fumo em corda, pois a campanha ia durar mais de 70 dias. Maçaranduba procura o Bacelar e entrega todo o fumo, pois acabara de aceitar Jesus. Passados alguns dias, com as equipes separadas, recebemos pelo SSB, nosso rádio, um pedido do Maçaranduba para retransmitirmos ao Bacelar: " Guarde minha parte do fumo, pois devolvi Jesus". A vontade de mascar fumo venceu.

Um abraço

Ney

Mais Rubinho - Murta

CONTROLE DAS DESPESAS

O Rubinho tinha das boas:

Quando foi transferido para o Departamento de Tratamento de Minérios, pretendeu reduzir as despesas

Foi cortando aqui e ali e por fim, achando que o pessoal, talvez uns 40 a 50 funcionários, estava a gastar muito papel higiénico, fez ele próprio um teste durante algum tempo, obtendo assim o seu consumo médio diário. Multiplicou o valor obtido pelo número de utilizadores dessa comodidade e daí em diante o pessoal que tivesse cuidado com os intestinos…

Não me recordo se a coisa durou muito tempo, mas acho que não.

 ---------O---------

 TROTE

 Um belo dia houve uma reunião dos chefões relacionados com a Mineração, no gabinete da Gerência. Entre outros, estavam o Dr.Osvaldo, Director no Rio de Janeiro, pessoa muito sisuda e respeitada, o Zé Paulo, que me parece, já era Gerente da Companhia no Amapá, o sub-gerente Márcio Kruger e outros.

A certa altura telefonaram-me com voz autoritária, perguntando se o Rubinho estava. Respondi que não. Então, se ele aparecer por aí, diga-lhe para ir imediatamente ao gabinete da Gerência, que querem falar com ele, disseram-me.

Passado um instante apareceu o Robinho a quem comuniquei a ordem.

Ele correu para a Gerência onde estavam em reunião e sentou-se.

 Toda a gente ficou espantada olhando para ele e perguntaram-lhe o que queria. Só então percebeu que era partida e disse _" foi aquele filho da puta do Manolo"…e saiu. Todos entenderam porque já tinham pregado partidas do género.

 Eu tinha desconfiado da voz e quando o Robinho se dirigiu à Gerência, abri a porta do escritório e vi um grupinho a espreitar, junto ao escritório da Geologia lá estavam o Manolo, o Maranhão, e mais outros do mesmo quilate. Tudo gente fina

V, B.Murta

Loulé, Portugal, Nov.2007

A gravidez do Rubinho - Murta

NÃO ESTAVA PREVENIDO….

O Rubinho era o chefe de Departamento de Concentração de Minérios, pessoa um tanto nervosa e com bastante espírito de humor, raciocínio e respostas rápidas.

No Brasil, a palha de aço é conhecida por Bombril, que é a marca de um destes artigos de limpeza.

O secretário do Rubinho era um rapaz alto, magro, um pouco do tipo Chico Esperto e que, pelo facto de ter o cabelo de um encarapinhado fino e abundante, tinha a alcunha de Bombril.

Devo dizer que no local onde isto se passa não era nada ofensivo tratar as pessoas pelas alcunhas, muito pelo contrário, as pessoas, a si mesmas, muitas vezes se identificavam por elas.

Uma manhã, o Rubinho chegou ao escritório do seu Departamento, encontrando cá fora o Bombril à sua espera. O diálogo que se travou foi mais ou menos o seguinte:

Bom dia Doutor.

Bom dia Bombril. Algum problema?

É Doutor, queria pedir-lhe um grande favor.

Estamos aí…Fale!

É que a minha esposa foi esta noite para o Hospital e teve um menino.

Parabéns Bombril.

Obrigado Doutor, mas o problema e que isto me apanhou desprevenido e queria ver se o Doutor me podia emprestar algum dinheiro.

O Rubinho imediatamente respondeu: Como é, Bombril? Você há nove meses que sabe que a sua mulher esperava bebê e foi apanhado desprevenido. Imagine eu, que nem sequer a conheço!....A coisa ficou por ali mesmo.

Nota: Os serviços de saúde e hospitalares eram grátis.

Mais Bicharada II - Murta

O NASCIMENTO DO "PUSSINHO"

Faço anos na noite do Natal e no Amapá convidávamos os Amigos, que, felizmente eram muitos, para jantar conosco lá em casa.

Isto, parecendo que não, e com a devida vénia, vem a propósito de gatos.

Na Serra do Navio chegámos a ter onze, que eram bem tratados, mas que a minha mulher não deixava entrar em casa porque tinham o hábito de caminhar entre as pernas e que, por isso, mais de uma vez, ia caindo.Um dia até partiu todos os pratos que levava numa bandeja.

Porém, havia uma gata, grande, muito bonita, que gostava muito de se deitar atrás de mim enquanto eu, ao chegar a casa, me sentava para descalçar as botas de serviço. Conversava um pouco com ela, fazia-lhe umas festinhas e ela lá se ia embora.

Um dia a bichinha emprenhou e não é que pariu um só gatinho, exactamente nessa noite, na noite de Natal e do meu aniversário, lá fora, na varanda, sobre a almofada duma cadeira espreguiçadeira?

Na manhã seguinte, a minha mulher chamou-me para ver uma linda cena: A jovem Mãe, protegendo o filhinho e olhando para nós como a implorar que não os tirássemos dali. Não havia sujidade nenhuma e lá ficaram.

Este filhote, a quem demos o nome de Pussinho, dadas as circunstâncias, era o único gato que circulava livremente pela casa. Só não estava autorizado a ir para o colo da Severiana, que aliás fazia dele o que queria, inclusive enfiar-lhe comprimidos pela goela abaixo quando ele esteve doente.

A certa altura, ausentou-se durante alguns dias, o que não era habitual. Quando apareceu vinha um tanto triste e um dia, estando nós a ver televisão, saltou para o meu colo. Fiz-lhe umas festas e saltou em seguida para o colo da Severiana, olhando para ela com uma certa tristeza no olhar. Parecia até que se estava a despedir. Estranhamos, pois como disse, ele não estava autorizado a tomar aquela liberdade.

Depois, olhando para nós mais uma vez, lentamente saiu de casa e nunca mais soubemos do nosso Pussinho. Mas ficámos com muitas saudades dele.

V.B.Murta

Dez.2007-Loulé-Portugal

Mais Bicharada I - Murta

OS PASSARINHOS LÁ DE CASA

Em frente da nossa casa DD, a que me referi anteriormente, havia uma grande acácia rubra, uma beleza quando floria.

Como por ali não faltavam beija-flores, pipiras, azulões e outros maiores, pretos com o peito amarelo, resolvi nela pendurar, para os beija-flores, um frasco com um furo na tampa e um papel vermelho a imitar uma flor, colado nela, como já tinha visto nalgumas casas. Diariamente o frasco era atestado com água açucarada.

Era uma alegria para os contemplados com aquela mordomia, inclusive para os grandes de peito amarelo, que não conseguindo parar no ar, como os beija-flores, usavam o estratagema de se pendurar no cordel, de cabeça para baixo e assim enfiarem o bico no furo da tampa do frasco. Os beija-flores não gostavam da invasão, lutavam, faziam um chinfrim dos demónios, mas acabavam por se entender.

Para que os outros se não sentissem discriminados, pedi ao Estrela para me arranjar uma pequena plataforma de madeira, que pendurei na dita árvore e onde colocava banana, papaia, miolos de pão, arroz, etc. Bastava assobiar para que a passarada das redondezas se viesse refastelar. Era uma festa.

Mas, um belo dia fomos morar para uma casa CC.

Passados que foram aí uns dois meses, resolvemos dar uma olhada na anterior habitação, que ainda se mantinha desocupada.

A Severiana bem me aconselhou a não assobiar mas "eu fi-lo porque qui-lo" Assobiei e fiquei com um nó na garganta quando os bichinhos, em bandos se dirigiram para a árvore e ficaram a olhar para nós, esperando pela comida, que não leváramos.

Fiquei arrependido " à Bessa", mas, nada a fazer.

Murta (MTA)

Dez.2007-Loulé-Portugal

A Bicharada - Murta

O TATU

Nos princípios de 1976 chegamos à Serra do Navio e fomos viver numa casa DD. Na mesma rua moravam com as respectivas famílias, se a memória me não falha, e por ordem, a partir do lado do CCH, o Chefe da Segurança, de que me não lembro o nome, o Carmichel, nós, o Pedro Soriano, o Noémio e o Jorge Índio. Depois era a vez da floresta. Em frente, no outro lado da rua, ficava o edifício de alojamento dos solteiros.

Uma noite, estava eu sentado na varanda quando vi um estranho bicho, meio coelho, meio tartaruga, se aproximando de mim. Fiquei naturalmente intrigado e levantei-me para observar melhor o animal, que tinha um tamanho respeitável. Este resolveu então virar as costas e voltar para o mato donde viera. Era um TATU! Foi o nosso primeiro contacto com os habitantes da floresta.

A JIBOIA

Um dia apareceu-nos lá em casa uma mulher da região perguntando se queríamos comprar uma jibóia.

Jibóia? Perguntamos nós, não acreditando no que ouvíramos. Jibóia? Nem dada. Mas para que diabo  quereríamos nós uma cobra? Então a mulher levantou a tampa do cesto que transportava e mostrou-nos o seu conteúdo. De facto era uma jibóia Claro que agradecemos, cá dentro pedindo a todos os Santinhos para que a vendedora rapidamente se"escafedesse" dali.

No entanto, antes da mulher se retirar, perguntei-lhe para que é que a cobra nos serviria. Não me lembro bem da resposta mas julgo que era para servir de companhia e para caçar ratos.

Vim a saber que isso era normal e vi até uma foto dum rapaz que trabalhava comigo na abertura do túnel de pesquisa na F12, montado numa bicicleta acompanhado dum bichinho destes enrolado no quadro.

Acho que a mulher se dirigiu para a casa do Pedro Soriano, mas parece-me que não fez negócio.

Para aquela boa gente, Deus com certeza não excomungou a cobra…

V.B.Murta (MTA) - Nov.2007-Loulé-Portugal

O contrabando - Doné

O CONTRABANDO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS

 Pois é, também tenho uma que considero muito boa.  Lembram-se desta? Muita gente boa entrou na dança.

 O Manolo, que era um sujeito da "pesada", mandou embora um de seus funcionários, que veio a ser da
Policia de Macapá. Como ele sabia das andanças do pessoal da Serra do Navio  em Manaus, com consequente retorno regrado a muito "contrabando", resolveu dar o troco no Manolo e o esperou no aeroporto de Macapá.
O Manolo que vinha bem abastecido entrou pelo cano e, segundo consta, perdeu tudo.
AÍ  "A MENTE MALIGNA DE ALGUNS " RESOLVEU BOLAR UMA BRINCADEIRA aproveitando -se do momento de apavoramento do pessoal.
Usando do rádio de comunicação, o que era o que tínhamos naquele momento,  apareceu uma solicitação da Policia de Macapá para uma "visita oficial" na Serra tendo em vista que eles haviam sido notificados que o pessoal ia muito a Manaus, traziam muito equipamentos de som,  whisky, fitas cassetes etc. e toda sorte de objectos, passando pela alfandega sem o devido pagamento dos impostos.
O Rádio chegou avisando que eles estariam na Serra na manhã seguinte chegando de M2 (se não me engano).
Na noite que antecedeu a chegada da policia houve um alvoroço danado, com alguns coemps (empregados), levando garrafas de whisky, alguns sons etc. para guardar no "chapéu de malandro" (local de depósito de explosivos) e que alguns até quebraram algumas garrafas. Na calada daquela noite só se via camionetas fazendo transporte de "mercadorias " para esconder em algum lugar e falaram até que o Zé Paulo quebrou algumas garrafas. Mas no dia ninguém comentou nada, será por que?
Como sabemos isto é apenas um começo de muitos "causos" que virão por aí.

Abraços a todos

Doné

Kalamazoo - Mercer

Murta, você se lembra de um acidente com a litorina (Kalamazoo), que por falha dos freios chocou-se com a trazeira de um trem da EFA?

Eu era um dos passageiros da kazoo e você do trem. Sofri pequeno corte no braço que sangrou e manchou minha camisa branca, assustando quem me via. Você foi o primeiro que me acudiu. O ferimento foi insignficante, mas lembro dele pela sua solidariedade.

Outro passageiro da kazoo, dr. Henrique Brandão Cavalcani, Diretor da CAEMI e depois Ministro do Meio Ambiente do Governo Brasileiro, foi quem mais se feriu: sofreu uma luxação no joelho, que foi medicada na Unidade de Saúde da ICOMI em Santana.

 Grato,

 Mercer

Dr. Gusmão - Murta

Num fim de semana, havia um churrasco lá junto à piscina do CCH de SNV e, sentado sòzinho a uma mesa, estava um cavalheiro de uma certa idade, que eu nunca tinha visto por ali. Entabulei conversa com êle; pareceu-me uma pessoa interessante e bastante culta. Como estava só e nós tínhamos convidado para jantar um alemão que andava lá pela floresta à procura de plantas(ou animais?) , o que disse a esse senhor, perguntei-lhe se aceitava jantar também conosco. Aceitou.

O senhor falava bem inglês e a conversa, que cobriu vários assuntos, foi muito interessante.

No dia seguinte, alguém me perguntou de onde é que eu conhecia o Dr.Gusmão. Eu disse que não conhecia tal pessoa e só então é que fiquei sabendo que era o senhor brasileiro que jantou em nossa casa.

Se eu soubesse de quem se tratava, certamente que não teria coragem de o convidar.

Um abraço

Murta (MTA)

Fartura do CCH - Gilson Cheble

Brito e Martel eram dois garçons do CCH de Santana no Amapá. O Brito era um torcedor fanático do Flamengo. Ele sabia mais do Flamengo do que eu que também era flamenguista e vinha do Rio de Janeiro. O Brito era falante. O Martel mais calado.
Quando fui para o Amapá estagiar em 1970, eu era de uma família muito humilde. Por isso mesmo, a oferta de comida na casa dos meus pais era muito simples.
Em Santana, eu fazia as refeições no CCH, pois morava no alojamento de solteiros. Uma coisa que chamava a nossa atenção era a fartura. Todo dia nós brincávamos muito com o Martel ou com o Brito, perguntando a eles o que tínhamos para o café da manhã. De forma sempre solícita, ambos repetiam: temos torradas simples, torradas quentes, misto frio, misto quente, ovos quentes, ovos fritos, ovos mexidos, ovos cozidos, ovos estrelados etc, etc. No almoço e jantar fazíamos pergunta semelhante e eles, da mesma forma e com muito bom humor, nos informavam a relação enorme de comida. A fartura era muita: no almoço sempre tinha uma sopa, um prato de salada e, no final, um prato principal.
É difícil para vocês entenderem o quanto aquele atendimento me deixava encantado? Eu era apenas um jovem estagiário. É por isso e por muitas outras coisas que o Grupo Caemi terá sempre um lugarzinho reservado no meu coração. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Avagina - Murta

OS NOMES DE BAPTISMO 

No Amapá, como certamente noutras partes do Brasil, além, dos nomes que constam nas carteiras de identidade, há outros bem expressivos dados pelo " Povão".

Seguem-se alguns que recordo com certa nostalgia: Maranhão, Maricosan, Rasto de Alma, Jaburú, Asa Aberta, Zé Parrudo, Bafo de Onça, Laby, Pé de Chumbo, Lápis sem Ponta, Boca de Caçapa, Didi, Pau Seco, Filhote, Deixa Que Eu Atiro, Patory, Fuinha, Anão Gigante ,Carapanã, Bandido e Estrela.

Por enquanto não me lembro de mais nenhum, mas pode ser que alguém se recorde e nos informe.

A propósito de Nomes de Baptismo, lembrei-me de dois casos curiosos, que não sei se são cem por cento verdadeiros, mas que vou "vender pelo mesmo preço que comprei":

PROBLEMA DE BRÔNQUIOS

O menino, bem pequeno ainda, estava quase asfixiado, com os brônquios entupidos.

Em desespero, o pai aceitou duma vizinha um pouco de Vicks VapoRub que aplicou na criancinha. Foi remédio santo.

Então, quando foi registar o filho e lhe perguntaram qual o nome a dar-lhe respondeu:

VICKS VAPORUB

E assim ficou, que se saiba, para toda a vida.

FAN DE ESTRELAS DO CINEMA

A Cabocla adorava ir ao cinema e gostava de mais de ver trabalhar a Ava Gardner e a Gina Lolobrídjida (não sei se é assim que se escreve, mas isso não importa).

Quando lhe nasceu a primeira filha, em homenagem às suas heroínas, baptizou-a com o nome das duas:

AVAGINA

Não sei, isso não me souberam dizer, se a menina mudou ou não de nome…

O cordão - Murta

Isto aconteceu na agência do Banco do Brasil, em Santana.
Atrás de mim, na fila para sermos atendidos, estava um técnico de ar condicionado da ICOMI, de nome Halowel (não sei se é assim que se escreve), grandão e bem-humorado.
Enquanto esperávamos a nossa vez, fomos batendo um papo e a certa altura perguntei-lhe se não tinha receio de lhe roubarem o grosso cordão de ouro, comprado a um garimpeiro, que ostentava ao pescoço.
Com aquela segurança própria dos fortes, disse que com ele não havia problema.
Fui atendido, saí e a porta foi fechada atrás de mim, pois estava na hora de encerrar o expediente.
Mais tarde soube que tinha havido um assalto no Banco e que, entre outros valores, o nosso amigo tinha ficado sem o cordão de ouro
Puxa, " fui salvo pelo gongo",,,


O Ralph - Murta

O Ralph era um norte-americano de ascendência mexicana, que adorava viver no Amapá, Norte do Brasil.
 
Foi um dos pioneiros da ICOMI, onde inicialmente (em princípio dos anos cinquenta, do século vinte) trabalhou na construção da Estrada de Ferro do Amapá (EFA).
 
Depois, durante alguns anos, foi trabalhar para o Norte da América, incluindo o Alasca, onde, segundo dizia, em determinada altura do ano havia mais mosquitos que num dos departamentos do Inferno.
 
Anos depois, regressou à EFA, onde, quando o conheci, em 1976, trabalhava com o Eng.º Almir ocupando depois a chefia desse Serviço.
 
Tinha mulher e duas filhas, que viviam nos Estados Unidos da América e ocasionalmente iam a Vila Amazonas, onde o Ralph vivia.
 
Durante os dezanove anos em que trabalhei na ICOMI e de que guardo excelentes recordações, o Ralph sempre me pareceu da mesma idade, relativamente baixo, vestido sempre com calças e camisa de caqui, pau para todo o serviço, calmo, com um elevado espírito de humor e um pouco duro de ouvido.
 
Fomos há dias informados que o Ralph tinha falecido em Belém do Pará. QUE DESCANCE EM PAZ, AMIGO.
 
Bem, esta conversa toda foi para apresentar o nosso Amigo a quem não o conheceu, e recordá-lo aqueles que com êle conviveram.
 
Vou agora lembrar dois "causos" passados com o Ralph:
 
O GARIMPEIRO E A SUA ESPOSA
 
Vinha o Ralph numa daquelas vagonetas motorizadas ali por volta do Cupixi, quando viu ao lado da estrada de ferro, sinal para parar, o que era habitual na região.
 
Eram três pessoas: um garimpeiro, a sua esposa, feia como a noite escura, e outro garimpeiro, amigo do primeiro e que estava muito maltratado, coberto de sangue e de golpes de facão, ou terçado, que é a mesma coisa_ em Portugal, catana.
 
Conversa puxa conversa, vindo o Ralph a saber pelo marido da dita que tinha aplicado aquele tratamento ao amigo, por este andar havia muito tempo a ter relações sexuais com sua esposa.
 
Então o Ralph respondeu_ " Rapaz, por causa duma beleza dessas, em vez de ter dado as terçadadas no seu amigo, você devia era ter-lhe dado um prémio, incluindo nele a sua mulher. 
 
 
ASSIM TÃO JOVEM
 
 
Estando o Ralph, parece que, no Banco do Brasil em Santana, AP entrou lá um dos Directores da CAEMI (penso que foi o Dr. Mercer, mas pode ter sido outro).
 
Amigos de há longos anos, havia muito tempo que se não viam. Depois daquelas amenidades habituais, o Dr. Mercer, disse ao Ralph, mais ou menos o seguinte _" Oh Ralph, olhe para mim, estou ficando velho, e você, depois destes anos todos, continua
exactamente na mesma. Qual é o segredo?"
 
Então o Ralph teria respondido _ " É simples, a minha mulher raramente me visita"…


Leishimaniose - Murta

A LEISHIMANIOSE

Ou "LECHIMÂNIA", como é chamada lá no Amapá, manifesta-se por uma ou mais chagas, em carne viva, localizadas na pele dos "contemplados". Parece que é causada pela picada dum pequeno "carapanã", especialmente à tardinha, na época das chuvas.

Lembro-me de dois casos que eram para mim, que nunca tinha visto uma coisa daquelas, muito impressionantes _ numa ou nas duas pernas do Sr.Nadir, que era o chefe da Casa de Força de SNV e outras nas costas da esposa do Estrela, topógrafo, também em SNV.

A minha mulher bem me dizia para perder aquela mania de ficar sentado na varanda, à tardinha, se não queria apanhar uma picada e contrair aquela doença,

Bem, como estas coisas só acontecem aos outros, nunca liguei aos conselhos, até que chegou a minha vez. Apareceu-me uma pequena borbulha na parte de dentro do pulso do braço direito, coisa insignificante

Como a feridinha não andava nem desandava, comecei a ficar desconfiado e resolvi ir ao médico. Feita a análise, lá veio a desagradável notícia.

Apanhei primeiro uma injecção no traseiro, assim do tipo de creme de abacate, e por isso muito bem designada por "abacatada".Gente, aquilo não é fácil _ dá dores, febre e derreia o mais forte. Mas suportei aquela dose sem faltar ao serviço.(Claro que isto não é para me gabar….bem entendido).

Depois, durante uns seis meses, todas as tardes ia ao Hospital apanhar uma injecção nas veias. Não era "pêra doce", mas o pior é que durante esse período não bebi nada com álcool, nem uma cervejinha, nem vinho às refeições, nada mesmo Não foi fácil, mas como eu me queria curar, aguentei o rojão.

A feridinha continuava exactamente na mesma, até que um dia me lembrei de perguntar ao Estrela como é que a esposa dele se tinha curado. Disse-me que foi com óleo de Andiroba (ou de Copaíba, não me lembro bem).

Então, todas as manhãs aquecia, no fogão a gás, uma colher de óleo e aplicava-o, com uma cotonete, sobre a ferida.Curioso é que só sentia assim como uma picada de alfinete, embora o óleo estivesse a ferver.

Ao fim duns oito dias estava curado e praticamente sem se notar nada no pulso.

Das duas uma, ou este remédio é milagroso ou estava na hora de me curar. Mas eu acho que a Ciência deve estudar mais a sério estes medicamentos dos Caboclos.

V.B.Murta (MTA)

Dez.2997-Loulé-Portugal

P.S._ Parece que o Sr. Nadir se curou com leite de mamão verde. 

A do Maranhão - Rubinho

Conto agora a do Maranhão:

No casamento do Jorginho, que casou com a Vilenice sobrinha da Irce do Adílio Mansur Árabe, em Serra do Navio, o Maranhão estava tonto e forçou o seu filho o Felipe a comer uma hóstia. Só fiquei sabendo depois do fato acontecido e nesta época eu era o Subgerente de SNV, e diversas pessoas em SNV acharam um absurdo o que ele fez. Disse para todos, deixa comigo que ele vai ver.  Mandei reservar um apartamento no CCH para o Dom Luís, bispo de Macapá e avisei ao Maranhão que o Bispo estava vindo a SNV para falar com ele. O Bispo chegaria às 21:20 horas no trem M-5. O Sr Florisberto colocou frutas, biscoitos e refrigerante no quarto para o Bispo.  No dia seguinte, lá pelas 09:30 horas, chamei o Maranhão e falei que o Bispo já estava aguardando no CCH a sua presença, e não poderia deixar uma autoridade esperando. O Maranhão perguntou o que ele quer comigo? Disse que iria tratar do assunto da hóstia do casamento do Jorginho, e quando o Bispo desloca da sede para tratar de um assunto como o acontecido, possivelmente o excomungaria.  Maranhão na mesma hora disse pode excomungar que não sou católico mesmo.  Falei com Maranhão para pedir perdão pelo feito. Fui levar o mesmo para o CCH, fui bem devagar para ele refletir. Começou a suar frio e perguntou o que falo com ele, disse para ele pedir perdão ou pedir para ser excomungado logo.  Ao chegar no CCH fui ao apto 12, que era reservado a Diretoria e Autoridades, já sabia que o bispo não estava. Batemos na porta e nada, falei com o Maranhão que ele devia estar passeando em torno do CCH. Nesta altura do campeonato a camisa do Maranhão já estava encharcada de suor e estava pálido. Rodamos em torno do CCH bem devagar e o mesmo tremia que nem vara verde. Depois de um certo tempo, após ele sofrer muito, falei com ele que não havia bispo nenhum e que ele estava pálido e suando e quase sujando as calças com medo de ser excomungado.   Passado uns tempos o Felipe adoeceu e foi fazer uma cirurgia em São Paulo, ficou engessado alguns meses, quando ele retirou o gesso falei com o Maranhão, lembra da hóstia? Houve outro caso que lembrei ao Maranhão o da hóstia. Passado algum tempo o Maranhão que não era católico, levou os seus meninos para batizar.  Muitos anos depois, contei ao Dom Luís este caso e ele achou muita graça e disse que eu fiz muito bem em passar este aperto no mesmo.Qualquer hora contaremos outro caso o do Pedro Soriano com a camisola em Manaus.

Abçs

Rubinho

Éramos Felizes - Murta

ÉRAMOS FELIZES E SABÍAMOS_ O Euripedes Siqueira e a sua esposa, a Laruse, gostavam muito de cantar aquelas músicas sertanejas do rico folclore brasileiro. O Eurípedes acompanhava muito bem no violão essas canções, que nós adorávamos ouvir.

Hoje, no intuito de matar saudades, (mas não conseguindo), ouvimos uma fita gravada por eles Só faltou chorar!

Entre outras canções, ouvimos as que se seguem, cujas letras são da autoria de alguns Amigos, entre eles os atrás mencionados.

Para bom entendimento das letras, se dão os significados seguintes:

Patrol Moto-Niveladora. Máquina para nivelar terreno.

Cintura, nome dum pequeno comerciante em Serra do Navio, dono duma lojinha atafulhada com tudo, agulhas, roupas, medicamentos e por aí adiante.

Seresta, canção acompanhada com violão, à noite, e com umas cervejinhas à mistura.

Aí vão elas:

               SERRA DO NAVIO I

A Serra do Navio vai dar ao Amapari,

O rio Amapari vai despejar no Araguari,

O rio Araguari vai bater no meio do Mar.

Lá iá, lá iá, lá iá, lá iá, lá iá….

O rio Amapari vai bater no meio do Mar.

 

À se eu fosse peixe,

Ao contrário do rio,

Nadava contra as águas,

E nesse desafio,

Saía lá do Mar para a Serra do Navio.

Lá iá, lá iá, lá iá, lá iá, lá iá, …..

 

Eu ia direitinho para a Serra do Navio

Pra ver o meu Benzinho,

Fazer uma caçada,

Pegar no manganês,

Ficar sem fazer nada,

Dormir ao som da Patrol,

Acordar com a passarada,

Lá iá, lá iá, lá iá, lá iá, lá iá…

Sem rádio e sem notícia das terra civilizada. …………Bis

Na Serra do Navio, ……………………………………Bis

Tando lá não sinto frio.

  

SERRA DO NAVIO II

Eu não quero outra vida,

Pescando no rio Amapari……………………Bis

Lá tem peixe bom,

Tem muita tilápia e tambati.

 

Quando no Verão, faz noite de Luar,

Pego na Viola e começo a cantar,

Vem lá da Mina o som da Patrol

Para me atrapalhar.

Lá iá, lá iá, lá iá, lá iá, lá iá…………………..Bis

 

 

Se tem no Cintura tudo o que é preciso,

Para quê baixar?

A viagem é longa……………………………. Bis

E eu me aborreço em Macapá,_

Se tenho no Cintura tudo o que preciso,                                  

Para quê baixar?                                              

Mas aqui na Serra, como, é bom morar,

Para fazer seresta, e não trabalhar

E no final do ano,

Ainda tiro férias

Para descansar.

               Lá iá, lá iá, lá á, lá iá, lá

A vida no Amapá - Murta

Durante perto de dezanove anos, trabalhei numa das maiores minas de manganês do Mundo, em Serra do Navio, aproximadamente no centro geométrico do Estado do Amapá, Norte do Brasil, em plena Floresta Amazónica, como se pode ver nos mapas que se juntam

O minério era transportado por caminho de ferro, numa extensão de duzentos quilómetros, para o Porto Mineraleiro de Santana, na margem esquerda do rio Amazonas.

Tanto a vila de Serra do Navio, como a vila Amazonas, que ficava perto de Santana, tinham cerca de quatrocentas e setenta habitações, além de hotel, alojamentos para solteiros, e solteiras, escolas até ao oitavo ano, hospitais, mercados, campos de foot-ball, ténis, e outros, água e esgotos tratados, etc.

Ao contrário do que às vezes se vê nos filmes sobre a Amazónia, os supermercados da Companhia vendiam tudo muitíssimo mais barato do que os outros.Mas só para os seus funcionários.

A vida era muito agradável, com jantares, churrascos e festas praticamente todos os fins de semana. O pessoal era muito alegre e sociável, porque quem assim não fosse, ou não aguentava e se despedia, ou a Companhia se encarregava de o fazer. A capital do Estado, Macapá, fica a uns vinte quilómetros de Santana e portanto a uns duzentos e vinte, de Serra do Navio, por estrada de rodagem.

O Didi - Murta

O DIDI DO ALMOXARIFADO

Na Serra do Navio e julgo que em boa parte do Brasil, os apelidos (alcunhas, em Portugal) postos às pessoas, não têm carácter ofensivo, como aqui às vezes acontece.

Havia em Santana um funcionário do Departamento de Relações Industriais, por onde passavam os admitidos antes de seguirem para a Serra do Navio, que tinha o hábito de os baptizar e informar o destino, do apelido aplicado. Era assim um tanto para o forte e bonacheirão, mas não me lembro do nome dele.

Mas é do Didi que quero falar.

Já não era nenhum jovem, usava a barba sempre um tanto crescida e trabalhava como motorista dum caminhão do Almoxarifado.Era um tanto perigoso nas marchas à ré pois nunca olhava para trás.

Um dia, ao chegar a Santana, depois dum longo e animado papo com um visitante que me pareceu ser pessoa dum certo status, ao despedirem-se, este ofereceu os seus préstimos e o seu endereço ao nosso homem. Este agradeceu e retribuiu dando-lhe também o seu nome e endereço mas, pensando melhor, corrigiu:

Pode escrever para DIDI, DIDI DO ALMOXARIFADO, Serra do Navio.

O Pastor - Murta

FOI ROUBADO NO TREM 

O Pastor era uma figura. De meia-idade, mais baixo que alto e mais gordo que magro, viajava no trem da EFA até à Serra do Navio, onde ia periodicamente cobrar o dízimo dos adeptos da sua Religião.

De regresso duma dessas actividades, deixou-se dormir e quando acordou, já em Santana, verificou que lhe tinham roubado a pasta, que ia um tanto volumosa. Quem foi, quem não foi o malvado, juntou-se uma multidão, houve palpites, mas nada feito. A pasta sumiu mesmo e o Pastor lá foi mais aliviado para casa.

Dias depois, um amigo, falando com ele, lamentou sinceramente o ocorrido, que um cara já não podia confiar em ninguém, que vivíamos num mundo de pecadores, etc., etc.

O Pastor então tranquilizou-o dizendo que não havia prejuízo além da pasta, que era velha, duns papéis sem valor e da Bíblia, mas mesmo essa não tinha muita importância pois tinha muitas lá em casa.

E o dinheiro da cobrança do dízimo? Perguntou o amigo.

Você pensa que eu sou bobo? O dinheiro eu trazia nos bolsos…

A pescaria - Edmundo Mercer

Vai aí um "causo" fraquinho, envolvendo nosso amigo lusitano o António Aleixo

Anselmo, excelente fotógrafo, contratado nos anos 60 para fazer o as built

das obras da ICOMI. 

Convidado pelo Freire, o Anselmo foi pescar pela primeira vez na vida. Atirou

várias vezes a linha n'água, sem sucesso. Até que o Freire orientou-o a atirar

a vara com mais força, para que o anzol fôsse mais longe. Foi o que o Anselmo

fez, mas usou tanta força que a linha foi atirada para trás e o anzol ficou

enganchado numa arvore. Ao puxar de volta a linha, algo veio preso no anzol.

O Anselmo, com seu forte sotaque, exclamou: "Ai Jesus, não é que eu pesquei

um passarinho!".

Só que não era um passarinho e sim um morcego frugífero, dêstes que se aninham

em arvores.

Assim, o Anselmo passou para a história como a primeira pessoa que pescou

um morcego...

Abraços do Edmundo Mercer

Gatinha - Gilson Cheble

Embora eu tenha ficado pouco tempo no Amapá, de fevereiro a setembro de 1970 (já se vão 38anos), quando fiz um estágio com o Newton Pontes Alves, algumas histórias eu tenho para contar.

Uma delas aconteceu à beira da piscina da vila de Santana: Após chamar carinhosamente de "gatinha" uma das meninas que estavam lá, notei que todas elas começaram a rir. Ao perguntar porque estavam rindo, uma delas me respondeu, meio sem graça, que gatinha no Amapá (pelo menos naquela época) era sinônimo de puta.

Ainda bem que nenhum pai estava por perto.

Gilson Brandão Cheble

Casamento arranjado - JPA

Um fato ocorrido em 1974 (eu ainda era solteiro)

Em Santana, a nutricionista( não me lembro o nome) e o dentista (José Pedro) eram namorados e , um dia conversando com o Tavares, resolvemos fazer uma brincadeira com os dois , decidindo que eles iriam se casar, obviamente sem falar nada com os dois artistas.

Mandamos fazer os convites, com casamento num sábado a tarde e com recepção no CCH logo em seguida.

Os convites foram enviados para quase todos os moradores de STN com os quais tínhamos mais contato ( vilas CC e DD) e no dia D, eu e o Tavares passamos na igreja e alguns convidados incautos lá estavam. Soube ( mas não vi) que alguns presentes foram também enviados.

Na 2af o Lyra chamou o Gregory, que já entrou na sala da Gerência levando um esporro , e indagou que raio de recepção de casamento havia sido programada para o CCH, já que esse tipo de evento era proibido por norma de procedimento ( ???).

O Gregory não imaginou que o Lyra soubesse e ficou bem enrolado para explicar. Em paralelo, o Lyra mandou o Ortiz abrir uma sindicância para saber quem teria sido o responsável por tal brincadeira ( sounds familiar com o atual Governo Lula).

Quando eu soube do assunto, resolvi procurar o Lyra e disse que o responsável pela brincadeira tinha sido eu e que não via nada de impróprio em termos da empresa. Se alguém tivesse que reclamar , seriam os “noivos”  ( que embora meio sem graça, até gostaram do episódio). O Lyra ficou meio sem graça, e disse que eu não podia ter feito esse tipo de brincadeira, que não fazia sentido , dado os rígidos padrões de conduta da empresa........................ !!!!!!!!!!!!!!!!!

Um abraço

José Paulo

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Navegando no ARAGUARI - Murta

VIAGEM À FOZ DO RIO ARAGUARI

 O PROBLEMA : O rio Araguari nasce a Norte do Estado do Amapá, dirige-se para Sul, e perto de Porto Grande inflecte para Nascente, indo desaguar no Atlântico, um pouco acima do Canal Norte do rio Amazonas.

A Pororoca, nome que se dá a uma ou mais ondas gigantes que ocorrem, se não estou em erro, por altura dos equinócios da Primavera e do Outono, e que levam tudo à frente, terra, árvores, etc., segundo dizem é mais violenta na foz deste rio do que na do Amazonas.

 Antes da construção da barragem, a barra permitia o trânsito de barcos dum certo calado, que subiam o rio numa extensão bastante razoável. Após a construção, a diminuição da força da corrente, em certas épocas do ano, originou o seu assoreamento, tornando-a quase impraticável.

A VISITA AO LOCAL: A certa altura, o, Governador do Estado do Amapá, Comandante Barcelos pediu à ICOMI para estudar uma solução para aquele importante problema

Fui então chamado ao gabinete do Gerente, (Márcio Kruger, se não estou em êrro), que me informou das intenções do Governador, e me disse para ir falar com ele a fim de combinar o que fazer.

Lá fui. A sua idéia era abrir com explosivos um canal na areia da foz do rio.

Expliquei-lhe que esse processo não resultaria e aconselhei-o a contractar uma companhia de dragagens. Mas ele insistiu na sua idéia e mandou organizar uma visita ao local.

Passados uns dias, lá fui eu numa "baita" duma canoa, tendo como acompanhante um engenheiro civil do Govêrno.Connosco ia também um engenheiro florestal, que aproveitou a viagem para inspeccionar alguns postos do seu Serviço, situados ao longo do rio.

Além de outros artigos, seguiam connosco um tambor de 200 e outro de 100 litros de gasolina

Enquanto não entregaram todo o combustível naqueles postos, confesso que não ia lá muito à vontade, com o timoneiro constantemente acendendo cigarros.

-2-

Eu ia vestido com a roupa impermeável, sueste e botas da ICOMI.

Quando embarquei, os meus companheiros de viagem, à boa maneira brasileira, começaram logo a brincar comigo por causa do meu equipamento e por ter desatado as botas.

Expliquei-lhes que ia preparado para a chuva, e desatara as botas por causa da eventualidade de dum naufrágio (eu prestara Serviço Militar na Marinha).

Os meus companheiros iam de bermudas, T-shirts e sandálias.

Pouco depois do início da viagem, que durou quatro horas, não contando com as paragens, já chovia que Deus a dava.

Aí ao fim de uma hora, parámos no primeiro posto dos Serviços Florestais. Eu cheguei completamente enxuto e os meus companheiros, molhados até aos ossos. Perguntei-lhes então o que pensavam do meu equipamento. A resposta foi, mais ou menos: "afinal, o portuga é que teve juízo". Mas a pior é que nem naquele posto, nem em nenhum outro, havia fogo para secar as roupas dos infelizes. Nem para aquecer um café

Lá seguimos viagem, com os coitados dos meus companheiros naquele estado,… e a chuva continuando a cair aos  potes…Mas não ficaram, por isso, mais molhados…

A gasolina e o engenheiro florestal ficaram pelo caminho, tendo eu, o timoneiro e o meu acompanhante prosseguindo viagem.

Este companheiro não tinha pressa nenhuma em chegar ao destino e, numa das paragens ficou conversando tempos e tempos com o dono de uma casa comercial, construída sobre estacas, como todas as casas da região, tomando umas cachacinhas e trocando impressões sobre os búfalos e pessoas conhecidas daquela parte do Amapá, que nessa altura do ano estava alagada até perder de vista. Um mar autêntico.

Bem. Por fim lá atracámos, já de noite, nas escadas de uma casa dum conhecido daquele companheiro e que ficava ainda a uma hora de canoa, da foz do rio. Ficou então decidido passarmos aí a noite.

Nessa casa viviam o dono, a mulher, um filho, a nora e um ou dois empregados.Dedicavam-se à criação de búfalos Era gente muito rica, mas que vivia em condições um tanto precárias. Gente boa e muito hospitaleira.

O banheiro ficava situado aí a uns vinte metros da habitação, sendo o acesso feito por uma passadeira montada sobre estacas. Lá havia uma tábua com dois buracos donde se via a água, lá em baixo. Aí, a toda a volta da casota, havia uma paliçada, que, penso eu, tinha a dupla função de dificultar a disseminação dos dejectos e impedir que alguma canoa se arriscasse a  passar por baixo…

Quando chegou a hora de dormir, como não tinha sido avisado para levar rede. tive que dormir sentado num sofá, com os pés em cima de um banco

Antes de me "deitar"perguntei onde havia. água para lavar os dentes. Bastava descer uns degraus e tirar água daquele mar barrento. Lembrando-me do banheiro, e para não ofender os hospedeiros, desci, mas preferi não usar daquela água.

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No outro dia de manhã, lá seguimos para a foz do rio, tendo eu demonstrado ao meu companheiro que o uso de explosivos era um absurdo, e, aconselhado, como tinha dito ao Governador,a que contractassem uma empresa de dragagens para resolver o assunto, e que, se possível, controlassem as descargas da barragem.

Como estava no tempo da pororoca, aguardámos por ela perto da foz, na casa dum conhecido do meu companheiro (aliás até parece que ele conhecia toda a gente).

Infelizmente a última ocorrência dêste fenómeno, tinha sido no dia anterior. Paciência.

A casa ficava situada num imenso areal, rodeado, ao longe, pela floresta

Havia várias árvores secas, à volta duma das quais o dono da casa tinha construído uma cêrca de bambu que servia de capoeira.

O que me surpreendeu foi a existência de grande número de ninhos de barro, parecidos com melões com buraco em baixo, pendurados nessa árvore, enquanto as outras não tinham nem um único.

O dono da casa explicou-me que os pássaros sabiam muito bem que ali estavam mais seguros, pois, se alguma ave de rapina se aproximasse, êle, para defender os seus animais, "mandava chumbo". E digam lá que os pássaros não são inteligentes…

O REGRESSO: Após o almoço em casa dos nossos hospedeiros, iniciámos a viagem de regresso, que, sem paragens, duraria cêrca de cinco horas, ou seja, chegaríamos já de noite

O meu acompanhante, como anteriormente, parou na tal casa comercial, bateu um longo papo com o proprietário, não demonstrando, bem como o timoneiro, nenhuma pressa em regressar, embora eu fosse lembrando que já era tarde e a viagem longa.

Por fim, já ao sol-posto, lá partimos debaixo duma chuva intensa que continuou durante toda a viagem.

Aqui tenho que demonstrar a minha admiração pela perícia (ou inconsciência) do timoneiro, pois não se via um palmo à frente dos olhos, mas êle conduzia a canoa no máximo da velocidade (ou era impressão minha?...)

O que nos valeu foram os relâmpagos, que de quando em quando rasgavam o céu, iluminando o nosso caminho.

Só apanhei dois sustos:

O primeiro foi quando o timoneiro desviou bruscamente a embarcação para estibordo, no meio uma confusão de vegetação aquática, e de ramos de árvores a roçaram pelas nossas cabeças. Isto foi devido a encandeamento provocado por um facho de luz vindo da margem esquerda.

O segundo foi ao contrário, uma guinada brusca para bombordo, motivada por nos termos cruzado com um barco branco, que navegava em rumo oposto, sem luzes de navegação Aliás, a nossa canoa também as não tinha (Deus é brasileiro…).

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Em ambos os casos eu ia saindo pela borda fora, mas não quis o Destino que tal acontecesse.

Quando chegámos ao fim da viagem, dei os meus parabéns ao timoneiro, mas jurei cá para comigo, que não viajaria mais naquelas condições, não por medo, bem entendido, mas pelo prosaico instinto de conservação.