Tudo começou no domingo de carnaval, 10/02/2013, quando eu pesquisava algumas musicas no Youtube e me deparei com uma que me fez lembrar do Murta...
Transcrevo a seguir os e-mails trocados entre nós. Sempre que possível acrescentei alguns links para as músicas das cantoras e cantores citados:
10/02/13, domingo, e-mail do Gilson para o Murta: Murta,
essa é para você. O encontro da música brasileira com a nova geração
portuguesa. Carmino e Chico Buarque. Clique no link aí debaixo... http://www.youtube.com/watch?v=lz6ODngWwcY
10/02/13, domingo, e-mail do Murta para o Gilson: Caro Gilson, Obrigado pela
lembrança. Trata-se de " DOIS IMORTAIS ".
10/02/13, domingo, e-mail do Gilson para o Murta: Por
falar em imortais, clique no link abaixo e ouça essa canção portuguesa... é do
meu tempo de criança... lindo demais... http://www.youtube.com/watch?v=MSIGWEcR5Dc
12/02/13, terça-feira, e-mail do Rotenio (neste e-mail o
Rotenio apresenta uma revelação surpreendente para mim) : Olá Gilson, na
verdade existem duas letras para a mesma melodia. No site indicado por você
temos a versão também conhecida como Solidão, letra escrita para um filme
estrelado pela Amália ( http://www.youtube.com/watch?v=i-JXKvlGc9U )
em meados da década de 50 , Amor no Tejo, creio. Preste atenção na letra
cantada pela Amália – não tem nada a ver com a Canção do Mar cantada pela Dulce
Pontes ( http://www.youtube.com/watch?v=MSIGWEcR5Dc )
naquele clipe famoso e completamente indescritível na sua beleza. Entretanto, o
arranjo de todas as versões da Dulce Pontes (é um carro-chefe) é a mesma
orquestração da Canção do Mar originalmente cantada pela Amália. Quando você
ler que é a Canção do Mar acompanhada pelo subtítulo Solidão, quase que
certamente é a versão (letra) do filme, que também se tornou um carro-chefe do
repertório da Amália. Gosto das duas letras, gosto das duas intérpretes, mas o
clipe da Dulce Pontes (com a letra original) é mais impactante. O Murta parece
preferir a Amália, claro, como a maioria dos portugueses. Eu prefiro.... as
duas. Ou melhor, as três. A interpretação da Mariza ( http://www.youtube.com/watch?v=BiU0fkwrviM
, http://www.youtube.com/watch?v=dGm9LrmCDbA ),
também fadista, mas de origem moçambicana (o pai português e a mãe moçambicana,
voltaram para Portugal no inicio da guerra da independência, com a Mariza ainda
criança) também é impactante, uma interpretação ainda mais dramática do que a
da Dulce Pontes, se isso é possível. A figura da Marisa, alta, magra, com a
cabeça quase raspada e o “traço” de cabelo pintado de branco, e a dramaticidade
de suas interpretações, são um caso à parte. Comprei na Livraria da Vila, em
São Paulo, um DVD da Mariza, com um show apresentado na cidade de Santarém em
Portugal, incrivelmente bonito. O último exemplar, se não foi o único
disponível na Livraria...Na linha do tempo, temos primeiro a Amália, muito
depois a Dulce Pontes, e finalmente a Mariza. Se você gosta de fados, recomendo
procurar Barco Negro com a Dulce Pontes ( http://www.youtube.com/watch?v=u_xCxzOP1ic&feature=youtu.be ) , Amália ( http://www.youtube.com/watch?v=Noy4M91Xj08 )
ou Mariza ( http://www.youtube.com/watch?v=5ElLSBx9Jo8 ).
Como dizia o Nelson Rodrigues, é para ouvir sentado no meio fio e chorando
lágrimas de esguicho... A poesia é um direto na boca do estômago...O letrista
poeta consegue a proeza de transmitir ao mesmo tempo a presença e a ausência,
ambas permanentes, do ser amado. Os dois primeiros versos, quando a
mulher acorda na praia, já mostram a dimensão não mensurável do amor do casal.
É uma obra prima de canção em língua portuguesa, e eu diria que mais do que da
canção, também da poesia, poesia que precisa ser ouvida, lida, sentida à cada
palavra.
12/02/13, terça-feira, e-mail do Murta para mim e para o
Rotenio: Ei Rapazes, a coisa está animando. Realmente eu gosto mais do
Fado à moda antiga, acompanhado à guitarra e à viola mas também
gosto do orquestrado, e muito. Bem, parece-me que o Canção do Mar -
Solidão foi cantado pela primeira vez pela Amália e o Canção do Mar, com outra
letra foi cantado mais tarde pela Dulce Pontes. O Fado " Barco Negro
", foi cantado pela primeira vez pela Amália e o tema é da mulher que
perde o companheiro no Mar e fica louca, se bem me lembro. Para quem gosta de
Fado recomendo, para começar Amália Rodrigues, Teresa Tarouca ( http://www.youtube.com/watch?v=tC5CPBjrxUk
) , Teresa Noronha ( https://www.youtube.com/watch?v=nlbZkzGFNCc
), Dulce Pontes, Marisa, Carminho, Alfredo Marceneiro ( https://www.youtube.com/watch?v=X2RtxXU1LJw
), Carlos do Carmo ( https://www.youtube.com/watch?v=LbI0OCiNN7Y
) e Camané ( http://www.youtube.com/watch?v=KaWhCGTnvAQ
)....Se a pessoa tiver algum desgosto, um copo do tinto carrascão ( ou mesmo
mais ) com umas pataniscas de bacalhau acompanham bem a receita. BRINCADEIRA...
12/02/13, terça-feira, e-mail do Rotenio para mim e para o
Murta: Não, ela não fica louca – ela acusa as outras mulheres de loucas
porque afirmam que ele não mais voltará. Mas ele não “voltará” simplesmente
porque nunca havia partido, “pois tudo ao meu redor me lembra que estás sempre
comigo”. Estará para sempre ausente, mas também para sempre presente, e isso, a
presença, ninguém tirará dela. Ora, pois.
13/02/13, quarta-feira, e-mail do Gilson para o Rotênio
(observem que eu só estou de “bicão” nesse papo, quem entende mesmo de fado é o
Murta e o Rotenio: Rotenio, que linda manifestação a sua! Eu desconhecia
totalmente que para a mesma canção haviam duas letras e muito menos da riqueza
de detalhes que você trouxe agora. Você é português como o Murta ou um
brasileiro apaixonado pela música lusitana?
13/02/13, quarta-feira, e-mail do Rotênio para mim: Olá
Gilson. Sou brasileiro dos quatro costados, com ascendência ibérica por todos
os lados. Em plena Praça do Comércio em Lisboa, mergulhado no nosso passado comum,
senti-me como que um retornado, um português exilado que enfim retornava à sua
casa. Foi um momento único de identificação passado-presente. É como se eu
tivesse testemunhado o maremoto que dizimou os lisboetas que nessa praça
procuravam abrigo depois do terremoto e incêndios que devastaram a Lisboa do
século XVIII. Também foi um momento angustiante, de emoções contraditórias. A
Zanizer também sentiu algo parecido. Sempre gostei da música, e esse instante
que considero de autoconhecimento ajudou-me a retomar um dos tipos de música
que ouvia quando era criança. Um abraço.
13/02/13,
quarta-feira, e-mail do Gilson para o Rotenio e para o Murta: Eu tenho que arrumar um tempo para sintetizar a conversa
que eu, você e o Murta mantivemos via e-mail a respeito dessa canção
maravilhosa para colocarmos no blog História da Caemi. Afinal, nada impede das
novas histórias serem inseridas lá... Abraços,
13/02/13, quarta-feira, e-mail do Murta para mim e para
o Rotênio: Caros
Gilson e Roténio, Calma aí. Para mim, uma das melhores fadistas portuguesas foi
Teresa Tarouca sentem-se na penumbra e oiçam o Fado Saudade, Silêncio e Sombra
( http://www.youtube.com/watch?v=fNsHmjdgcHI
)...e chorem à vontade. Um abraço,
13/02/13,
quarta-feira, e-mail do Gilson para o Murta e para o Rotenio: Eu já estou me beneficiando indiretamente com esse nosso
bate papo... Estou tendo o privilégio de conhecer a história do fado como
poucos...
13/02/13,
quarta-feira, e-mail do Rotenio para o Murta: É
verdade. A Teresa é muito boa. Uma característica que a distingue é a emissão
de todas as sílabas de cada palavra da canção. Provavelmente resultado de uma
educação clássica (é de família aristocrática). Grandes cantoras, como Marisa e
a Dulce Pontes, “engolem” sílabas. Saramago criticava essa tendência dos
portugueses “engolirem” sílabas. Teresa não fazia isso, pelo menos como
cantora. Isso é marcante no fado Saudade, Silêncio e Sombra. Também era uma
intérprete menos teatral ou trágica do que Marisa, por exemplo. Deixava a
melodia mais limpa. Pena que abandonou a carreira antes dos 50 anos. Não se
tornou um mito português, como Amália Rodrigues, nem fez sucesso internacional
como Marisa e Dulce Pontes. Entrou para a história da música portuguesa, e retirou-se
com discrição.
E aqui se encerra, por enquanto, essa breve história
sobre o fado...