domingo, 14 de dezembro de 2008

Saudades dos Companheiros - O Laby

Na Serra do Navio, o Laby trabalhava no meu sector, sob as ordens directas do Estrela, , de seu nome, João Ferreira de Almeida, homónimo, senão estou em erro, do primeiro tradutor da Bíblia Sagrada para Português.

O Estrela era um excelente topógrafo, mestre-de-obras civis e metálicas, duma extraordinária dedicação ao Serviço, profissional em quem se podia confiar, O Laby , era pedreiro, carpinteiro e topa a tudo; enfim era um bom auxiliar.

De vez em quando lá andavam às turras, mas a coisa acabava por se compor.

Já todos nós trabalhando em Santana, a certa altura o Laby informou-me que estava pensando em aposentar-se e que gostaria de saber a minha opinião. Disse-lhe que isso era absolutamente normal e legítimo e que embora eu tivesse pena, compreendia a sua pretensão.

Aposentou-se, mas daí a pouco tempo,e com muita frequência, passei a vê-lo, na parte de fora da portaria.

Uma manhã chamei-o à parte e perguntei-lhe o que estava a fazer ali todos os dias. Respondeu-me que era para ver os companheiros e matar saudades.

Como sabia que ele estava abusando da cachaça e lá em casa a coisa não ia lá muito bem, perguntei-lhe porque é que não se dedicava à pesca no Amazonas, em vez de passar o tempo, de pé, na portaria. Pensou um pouco e respondeu-me que ia experimentar.

Deixei de ver o nosso amigo, mas passado algum tempo encontrei-o a vender camarão no mercado, ali mesmo em frente.

Disse-me que estava tudo "nos trinques", que estava a ganhar uns trocados, e que lá em casa estava tudo bem, mas que de vez enquando ia assistir à entrada do pessoal para o serviço da ICOMI, só para matar saudades dos bons tempos…

O DIDI

Já falei deste Companheiro, mas agora, a propósito de saudades, lembrei-me que ele depois de se aposentar, andava muito ali pelo Super Mercado " Económico" de Santana, com um aspecto um bocado abatido. Soube que não sobreviveu muito à data da sua aposentadoria.

Saudades?...

OBSERVAÇÃO _ Como já lá vão uns anos e a memória pode falhar, pode acontecer que esta estória do Didi seja confusão minha e que ele esteja vivo e de boa saúde. Oxalá.


Murta (MTA)
Novembro de 2007

O Biotita

No início, o pessoal em Vila Nova (jazida de cromita) dormia em redes numa construção sem paredes. O curioso é que os mosquitos não atacavam. Ou não existiam ou achavam o sangue impróprio para consumo…

Como estive um bocado envolvido naquele projecto, às vezes dormia lá, o que tentava evitar por saber que ressonava, ou melhor dizendo, roncava mesmo (calma, agora estou curado, diz que…). Assim, sempre fazia por me estender depois dos outros companheiros e ficar bastante tempo acordado.

Uma noite, a minha rede ficou montada mesmo ao lado da do geólogo Luís Cláudio de apelido Biotita,

Daí a pouco este desatou a roncar que nem um desalmado, que nem uma motosserra, parecendo que queria deitar o barraco a baixo.

Fiquei feliz da vida, e foi assim que eu consegui adormecer e perder o complexo.

Se o Amigo Biotita alguma vez ler isto, peço que me desculpe a recordação, pois se calhar é confusão minha e até se tratava dum outro roncador

De qualquer modo, como ele é meio filósofo, vai  certamente compreender esta inofensiva prosa.


V.B.Murta (MTA)

Loulé, Portugal, Nov.2007