A
minha casa na Serra do Navio era a última da vila, CC7 - 35. Uma das duas mais antigas
casas da CC, ainda com colunas e vigas 100% em madeira. Eu dizia que era minha
por direito de usucapião...Com intervalos de 4 anos a administração da Vila
fazia uma reforma total e, nesse período, ficávamos em outra casa por perto.
Com a mata do outro lado da rua, os guaribas eram presença constante por ali.
Cheguei a gravar uma audição, um autêntico coral, que durou uns 15 minutos.
Pena que a fita K7 desapareceu antes do advento do CD. Era um testemunho
“sinfônico” incrível, com todas as modulações que o guariba principal era
capaz.
A parte
superior do armário embutido do nosso quarto era o local onde guardava umas 100
garrafas de whisky, compradas do “seu” Enedino. Certa noite o Pietr, com pouco menos
de 3 anos, estava no quarto dele, papagaiando sem parar. Eu e a Zanizer
estávamos lendo na sala, não prestando muita atenção no que ele falava. De
repente percebemos que ele havia mudado o padrão do monólogo e estava repetindo
uma cantilena “fumaça, fumaça, fumaça...”. Saímos apressados para a área dos
quartos, quase nos entalando na porta da sala de pastilhas (a Zanizer estava
grávida da Petruska). A fumaça saia do armário embutido, no lado que eu
usava...Quando abri as portas do armário saiu uma língua de fogo que quase
atravessou o quarto. Agindo instintivamente e sem proteção nenhuma, enfiei as
mãos no armário, arrancando as roupas dos cabides e jogando-as no chão. Eu só
pensava nas 100 garrafas do liquido um “pouquinho” inflamável na parte de cima,
e dos meus documentos também guardados por lá. Apaguei as chamas das roupas no
chão creio que sapateando em cima...Muito eficiente. Da área de serviço trouxe
uns baldes de água e tudo se resolveu, sem necessidade dos bombeiros
aparecerem. Mas foi uma boa descarga de adrenalina. Se as chamas atingissem o
whisky, provavelmente a casa inteira seria destruída antes dos bombeiros
chegarem. Tudo se resolveu graças à insônia do Pietr. O incêndio começou porque
a lâmpada que permanecia acesa no armário, contra o mofo, não tinha aquela
caixinha protetora, com uma tela (o Pietr, depois de brincar com minhas botas
de borracha de cano alto, foi guardá-las e empurrou as pernas de uma calça, que
encostaram na lâmpada). Eu já havia solicitado para a administração as tais
caixas protetoras das lâmpadas, mas foram instaladas depois do susto. O único
prejuízo foi que perdi quase todas as roupas. A solução foi comprar na feirinha
calças e camisas da Guararapes de Natal que eram vendidas pelos camelôs que
iam até a Serra a cada quinze dias. Tecidos sintéticos mas, juro, nenhuma
camisa que comprei era do tipo Volta ao Mundo, o monumento ao mau gosto da
década de 70.....Sobre a Volta ao Mundo, bem, isso já é outra história e fica
para a próxima vez.
Rotenio
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