sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A INSÔNIA DO PIETR - Rotênio

 A minha casa na Serra do Navio era a última da vila, CC7 - 35. Uma das duas mais antigas casas da CC, ainda com colunas e vigas 100% em madeira. Eu dizia que era minha por direito de usucapião...Com intervalos de 4 anos a administração da Vila fazia uma reforma total e, nesse período, ficávamos em outra casa por perto.
 
Com a mata do outro lado da rua, os guaribas eram presença constante por ali. Cheguei a gravar uma audição, um autêntico coral, que durou uns 15 minutos. Pena que a fita K7 desapareceu antes do advento do CD. Era um testemunho “sinfônico” incrível, com todas as modulações que o guariba principal era capaz.
A parte superior do armário embutido do nosso quarto era o local onde guardava umas 100 garrafas de whisky, compradas do “seu” Enedino. Certa noite o Pietr, com pouco menos de 3 anos, estava no quarto dele, papagaiando sem parar. Eu e a Zanizer estávamos lendo na sala, não prestando muita atenção no que ele falava. De repente percebemos que ele havia mudado o padrão do monólogo e estava repetindo uma cantilena “fumaça, fumaça, fumaça...”. Saímos apressados para a área dos quartos, quase nos entalando na porta da sala de pastilhas (a Zanizer estava grávida da Petruska). A fumaça saia do armário embutido, no lado que eu usava...Quando abri as portas do armário saiu uma língua de fogo que quase atravessou o quarto. Agindo instintivamente e sem proteção nenhuma, enfiei as mãos no armário, arrancando as roupas dos cabides e jogando-as no chão. Eu só pensava nas 100 garrafas do liquido um “pouquinho” inflamável na parte de cima, e dos meus documentos também guardados por lá. Apaguei as chamas das roupas no chão creio que sapateando em cima...Muito eficiente. Da área de serviço trouxe uns baldes de água e tudo se resolveu, sem necessidade dos bombeiros aparecerem. Mas foi uma boa descarga de adrenalina. Se as chamas atingissem o whisky, provavelmente a casa inteira seria destruída antes dos bombeiros chegarem. Tudo se resolveu graças à insônia do Pietr. O incêndio começou porque a lâmpada que permanecia acesa no armário, contra o mofo, não tinha aquela caixinha protetora, com uma tela (o Pietr, depois de brincar com minhas botas de borracha de cano alto, foi guardá-las e empurrou as pernas de uma calça, que encostaram na lâmpada). Eu já havia solicitado para a administração as tais caixas protetoras das lâmpadas, mas foram instaladas depois do susto. O único prejuízo foi que perdi quase todas as roupas. A solução foi comprar na feirinha calças e camisas da Guararapes de Natal que eram vendidas pelos camelôs que iam até a Serra a cada quinze dias. Tecidos sintéticos mas, juro, nenhuma camisa que comprei era do tipo Volta ao Mundo, o monumento ao mau gosto da década de 70.....Sobre a Volta ao Mundo, bem, isso já é outra história e fica para a próxima vez.   

Rotenio

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